religião
Desenvolvimento pessoal,  Reflexões

Culpabilização nos movimentos religiosos e terapêuticos alternativos

Para falar do tema da culpabilização presente em alguns movimentos religiosos e terapêuticos alternativos, partimos da premissa que “No coração de todas as grandes tradições espirituais está o humilde reconhecimento de que existem forças no universo que são mais poderosas do que nós”.

A citação é do autor John Amodeo, num artigo para a Psychology Today, no qual ele diz também:

Um ponto de vista popular em algumas comunidades espirituais e da Nova Era é que somos responsáveis ​​por tudo o que nos acontece. Quando algo dá errado, somos instruídos a nos perguntar: “Como eu criei isso?

Um dos membro da comunidade Betrayal Trauma Recovery fundada por Anne Blythe para apoiar mulheres vitimas de abuso e trauma, refere que a expressão:

“nós criamos nossa própria realidade”, é uma forma de culpar a vítima. Existe o ensinamento de que tudo o que sentimos e experienciamos tem origem nos nossos próprios pensamentos (…) e que nada acontece connosco do lado de fora. Isso pode ser muito culpabilizador para uma vítima [de abuso].

Este discurso pode ser verdadeiramente desestabilizador para alguém que esteja a passar por um problema, qualquer que seja a sua natureza, pois há situações que estão muito além daquilo que nós, individualmente, conseguimos fazer. 

Ultrapassar a dor, o trauma, a perda ou reconhecer um comportamento ou hábito nocivo pode levar anos, dependendo muito das condições pessoais, financeiras, familiares e sociais que temos. 

Ao invés de apontar dedos, deveremos ser mais compassivos e activos, pois este é um problema que nos toca a todos.

Amor próprio e auto cuidado

Actualmente damos muito valor à questão do amor próprio e do auto cuidado, uma tendência que veio para nos libertar de vários tipos de opressão a que – principalmente as mulheres, mas não só – temos sido submetidas.

Mas a quase obrigatoriedade de manter hábitos saudáveis pode trazer-nos alguns dissabores, nomeadamente: foco excessivo em coisas que não podemos controlar, frustração e culpabilização. 

Já para não falar da alienação da realidade na qual alguns conselhos terapêuticos de bem-estar espiritual estão mergulhados, como se todas as pessoas vivessem o mesmo estilo de vida, com as mesmas condições sociais e financeiras.

Ao ouvir falar alguns influencers e gurus do bem estar relativamente a determinados aspectos do autocuidado, parece que se esquecem que algumas pessoas não têm outra opção senão ter o seu dia preenchido com o trabalho e os afazeres domésticos. 

Exemplos bem próximos de nós: O que dizer da mulher, mãe solteira, que tem dois empregos para poder sustentar os filhos, chega a casa e tem as tarefas diárias para cumprir, e quando termina só quer fechar os olhos e descansar? O maior autocuidado para esta mãe será ver os seus filhos a dormir, saudáveis, depois de um bom jantar, e poder ela também deitar-se a recuperar energia.

Responsabilização é diferente de Responsabilidade

No primeiro temos o conceito que “eu sou responsável por algo acontecer”. No segundo, “eu responsabilizo-me pelo que sei o que tenho de fazer, e faço-o”. 

Certos movimentos new age, especialmente os que se dirigem às mulheres, fomentam igualmente a ideia de “feminino ferido”, “útero doente” ou conceitos semelhantes – como se elas fossem responsáveis pela criação e manutenção do problema.

Isto dá-se, nomeadamente, quando referem que problemas do sistema reprodutor ocorrem porque a mulher não aceita a sua feminilidade, carrega traumas do passado ou tem uma má relação com o pai, entre outros.

Aquilo que muitas vezes acontece é que os terapeutas holísticos, sem formação em saúde, psicologia ou apoio social e comunitário, disparam sobre as pessoas que os procuram, baseando-se em diversas teorias religiosas, filosóficas e até (pseudo) cientificas, coo se fossem verdades absolutas (e não um sistema crenças) e instruem-nas na ideia de que elas estão “feridas, traumatizadas e quebradas”.

espiritualidade

“Você não vê terapeutas falando sobre energia peniana para os homens, mas estamos sempre encontrando terapeutas alternativos dizendo que a mulher precisa limpar o corpo por causa de relacionamentos passados” – Bruno Farias, psicólogo

A solução oferecida passa muitas vezes por fazer determinado ritual mágico, curso espiritual de vários meses ou retiro detox – muitos deles caríssimos e sem qualquer efeito terapêutico ou apoio psicológico auxiliar.

Além da apropriação cultural de rituais que estão fora do nosso contexto, existe também a ideia de que um círculo feminino de apoio pode curar problemas ginecológicos ou traumas familiares ancestrais. 

Em consequência destas ideias, as mulheres têm tendência a sentir-se responsáveis pelos seus problemas – mesmo quando não têm controlo sobre eles, especialmente nas questões de saúde. É como se estivéssemos a culpar a pessoa por aquilo que acontece, em vez de apresentarmos real ajuda.

O mesmo acontece com os meios religiosos, nos quais é difícil para as mulheres, em casos de violência doméstica, por exemplo, ter o apoio necessário para resolver o problema.

Muitas vezes elas são responsabilizadas pelos líderes das igrejas, como se a felicidade e estabilidade do lar dependesse unicamente delas e assim retirando ao cônjuge qualquer responsabilidade na relação, a não ser providenciar o sustento financeiro.

A religião ajuda na manutenção do patriarcado também porque é nela que vamos buscar respostas para as injustiças sociais (…) as religiões em geral sacralizam a família e a autoridade do marido (…) a família é sempre uma coisa a ser salva impossibilitando o afastamento de vítimas dos seus agressores.

(Este tema continua. Lê o segundo artigo relativamente a ele: O que é empoderar e como podemos efectivamente ajudar?)

Autoria, pesquisa e redacção:

Joana Silva, terapeuta e autora do site www.terapiasdalma.com e Patrícia Gomes, terapeuta e autora do site www.nemsemprezen.pt  (Dezembro 2021 – Março 2022)

Bibliografia:

Ávila, A. Aragão. (2019). “Armadilhas da culpabilização materna”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 28, n. 2, e65236. Visor Redalyc – Armadilhas da culpabilização materna

New Age Bypass Is Victim-Blaming | Betrayal Trauma Recovery – consultado em 31/01/2022

No, We Don’t Create Our Own Reality | Psychology Today – consultado em 12/12/2021

Ex no útero? O que é a reconsagração do ventre – consultado em 01/02/2022


Joana

O meu trabalho passa pelas áreas do Sagrado Feminino, Tarot e Óraculos, Mitologia e Contos de Fadas. Todas estas terapias contribuem para o auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal. Sou enfermeira e trabalho também com a Ayurveda. Adoro ler desde que me lembro de ser gente e os livros são um dos meus maiores vícios. Sou uma mãe loba mega babada de uma bebé arco-íris. Aqui podes encontrar informação sobre as terapias que realizo, os produtos e serviços que ofereço, e vários textos meus, alguns deles reflexões pessoais, outros sobre os assuntos que estudo. O meu objectivo é ajudar-te a encontrares ferramentas adequadas a ti para o teu auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal, bem como conseguires um maior bem-estar.

O meu trabalho passa pelas áreas do Sagrado Feminino, Tarot e Óraculos, Mitologia e Contos de Fadas. Todas estas terapias contribuem para o auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal. Sou enfermeira e trabalho também com a Ayurveda. Adoro ler desde que me lembro de ser gente e os livros são um dos meus maiores vícios. Sou uma mãe loba mega babada de uma bebé arco-íris. Aqui podes encontrar informação sobre as terapias que realizo, os produtos e serviços que ofereço, e vários textos meus, alguns deles reflexões pessoais, outros sobre os assuntos que estudo. O meu objectivo é ajudar-te a encontrares ferramentas adequadas a ti para o teu auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal, bem como conseguires um maior bem-estar.

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