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Escritos da Alma,  Infertilidade,  Saúde da Mulher

Infertilidade e Perda Gestacional: Assuntos Tabu

Dar Tempo, Espaço e Abertura

Já há algum tempo que este assunto me chama, por várias pessoas que vieram conversar comigo e por várias publicações que tenho lido. Tendo eu passado por esta situação, posso falar sobre isto na primeira pessoa.

Existe aquele hábito de perguntar aos casais “quando vem o bebé”. Por favor, parem. Sabemos que não é por mal mas muitas vezes não sabem o que está por trás de uma vida sem filhos.

Pode ser opção, e se for esse o caso, respeitem. Isso é uma decisão do casal e que compete a ambos apenas, e não têm de dar justificações.

Um Outro Lado da História

Eu passei por um outro lado desta história: eu queria muito ter filhos, sempre quis, e o meu namorado também. Já falei disso com mais pormenor anteriormente (lê aqui), por isso não vou repetir todos os detalhes, mas relembro algumas coisas que acho importantes para este texto.

Foram vários meses a tentar sem qualquer tratamento, e depois vários meses a tentar com diferentes tipos de tratamento, incluindo três fertilizações in vitro, sempre com um negativo a juntar a todos os anteriores.

Eu sentia-me cansada, frustrada, e, sim, num certo ponto sentia-me menos mulher, sentia que a culpa era minha porque os problemas estavam no meu corpo (falo disso no outro texto). Do meu namorado eu sentia todo o apoio do mundo e era incansável comigo e as minhas emoções. Ele dizia que era uma “situação nossa”, não era minha, um “problema nosso”, não meu, e nem por um segundo fazia ou dizia algo que me fizesse sentir sozinha.

Mas a verdade é que eu tinha dias em que me sentia sozinha… Sentia-me invadida por uma tristeza enorme, uma frustração e uma dor que não consigo transmitir em palavras.

Gravidez Surpresa

Quando engravidei a primeira vez, sem tratamentos e completamente de surpresa, já depois das três fertilizações in vitro, estes sentimentos começaram a acalmar: afinal não precisava de mais tratamentos, tinha finalmente conseguido.

No dia em que perdi esse bebé, eu chorei tudo o que sentia o que tinha para chorar naquele momento, e no dia seguinte lembro-me de ter acordado de manhã e estar sozinha em casa. Fui para a sala e sentei-me no chão, sem saber muito bem o que estava a fazer, quase em modo automático. E chorei novamente. Comecei por murmurar umas palavras mas comecei a libertar-me… falei alto, por fim gritei, pus em causa muita coisa em que ainda hoje acredito mas que naquele momento não fazia sentido.

Lembro-me perfeitamente de em um certo momento ter olhado para cima (não propriamente para o teto da sala, mas para algum lado além dele) e ter feito várias perguntas em tom zangado, ter “desbobinado” tudo o que me ia no peito e que eu tinha guardado durante todo aquele tempo. Não entendia o porquê de tudo o que estava a passar. Nunca vou esquecer o sangue, nunca vou esquecer ter pensado “afinal é isto que são as contracções” quando as senti – e que forma inglória de as conhecer, nunca vou esquecer o vazio que senti.

Chorei mais, gritei, até que o tom da minha voz foi diminuindo gradualmente, a respiração foi acalmando, o meu coração foi sossegando. A libertação não me tinha trazido respostas nem soluções, mas tinha-me feito bem. Rapidamente senti forças para retomar a minha vida, mesmo com aquela perda gravada no coração.

Agora, o objectivo do texto:

Várias vezes me perguntaram ao longo desses anos se “foi desta?”, “para quando um bebé?” e outras coisas idênticas. Não fazem ideia da dor que isso me provocava, dor esta que só aumentava à medida que os testes negativos me vinham parar às mãos. “Ainda és nova” ou “para a próxima é que é” quando eu contava que já estava a tentar não era grande consolo.

A dor da infertilidade e a dor da perda gestacional são daquelas que só quem passa realmente consegue compreender.

Inicialmente eu sorria enquanto dizia aos outros alguma coisa do tipo “ainda não” ou “sim, para a próxima é que é”, mas o sorriso escondia uma vontade enorme de me desfazer em lágrimas. Com o tempo fui perdendo a paciência e deixando de sorrir. Cheguei a pedir para pararem de me perguntar porque era um assunto muito delicado e pessoal.

Volto a dizer, sei que quando fazem estas perguntas e estes comentários não é por mal. Gostamos de saber estas coisas porque fomos ensinados que é esperado que, chegando a certa altura, um casal tenha filhos mas não sabemos se a história desse casal é igual ou ainda mais dolorosa do que a minha. Não contribuam para a dor dos outros. Estejam lá para eles, se eles decidirem um dia abrir o coração e falar com vocês. Se nessa altura não souberem o que dizer, não digam nada: eu preferia quando me davam um abraço do que um comentário como tantos outros que já tinha ouvido e que nada iria acrescentar nem mudar.

Nem tudo se conta no momento em que acontece

A dor é demasiado grande.

A maioria das pessoas só soube do meu aborto beeeem mais tarde, já depois da minha segunda gravidez, pura e simplesmente porque eu não queria comentários, não queria olhares tristes (diferentes de olhares empáticos) na minha direcção, queria sim contar apenas àquelas pessoas que me davam força mesmo sem ser preciso dizer uma palavra.

Houve muita coisa que eu comecei a trabalhar dentro de mim, nomeadamente os sentimentos de culpa e de ser insuficiente. Comecei a valorizar-me novamente enquanto mulher e acolhi aquele bebé. Agora falo de tudo isto com outra tranquilidade e paz interior. Tudo isto levou o seu tempo, claro, e não o fiz sozinha.

Depois disto já ajudei algumas mulheres com os processos delas porque a minha experiência ensinou-me muita coisa, inclusive o que não dizer.

Durante algum tempo eu guardei em silêncio alguma desta dor para mim, vivi esta dor de forma solitária. E mesmo quando a partilhamos, a dor não desaparece.

Normalmente achamos que é fácil.

Vemos toda a gente a engravidar, sem saber das dificuldades que possam existir (porque normalmente essa parte é vivida em privado ou apenas com pessoas que nos são muito próximas) e achamos que connosco vai ser igual. Desde cedo ouvimos coisas que nos preparam para a gravidez, para a maternidade, mas não ouvimos uma preparação para quando as coisas não correm como planeado, quando existem problemas que dificultam a gravidez, para quando até os tratamentos não resultam, para quando existe uma perda gestacional.

Por isso escrevi já anteriormente sobre a minha história, e é essa outra razão para o texto de hoje: falar abertamente de assuntos que ainda são tabu. Acho importante falar nisto, sim, e acolher a dor da infertilidade e da perda gestacional.

Lembremo-nos apenas que cada pessoa tem o seu tempo de processar internamente, e falar sobre as coisas não significa que a pessoa queira contar toda a sua história no momento em que ela está a acontecer. Dar tempo e dar espaço, dar abertura (que é diferente de forçar) às pessoas para falarem, é importante.

Se estás a ler isto e a passar por algo semelhante, ou se já passaste, acredita que não estás sozinha. Podes falar comigo, se o sentires. Estou aqui para ti, e como eu existem muitas outras mulheres (e homens, porque eles também sofrem com estas situações).

Acompanhas-me?


Joana

O meu trabalho passa pelas áreas do Sagrado Feminino, Tarot e Óraculos, Mitologia e Contos de Fadas. Todas estas terapias contribuem para o auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal. Sou enfermeira e trabalho também com a Ayurveda. Adoro ler desde que me lembro de ser gente e os livros são um dos meus maiores vícios. Sou uma mãe loba mega babada de uma bebé arco-íris. Aqui podes encontrar informação sobre as terapias que realizo, os produtos e serviços que ofereço, e vários textos meus, alguns deles reflexões pessoais, outros sobre os assuntos que estudo. O meu objectivo é ajudar-te a encontrares ferramentas adequadas a ti para o teu auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal, bem como conseguires um maior bem-estar.

O meu trabalho passa pelas áreas do Sagrado Feminino, Tarot e Óraculos, Mitologia e Contos de Fadas. Todas estas terapias contribuem para o auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal. Sou enfermeira e trabalho também com a Ayurveda. Adoro ler desde que me lembro de ser gente e os livros são um dos meus maiores vícios. Sou uma mãe loba mega babada de uma bebé arco-íris. Aqui podes encontrar informação sobre as terapias que realizo, os produtos e serviços que ofereço, e vários textos meus, alguns deles reflexões pessoais, outros sobre os assuntos que estudo. O meu objectivo é ajudar-te a encontrares ferramentas adequadas a ti para o teu auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal, bem como conseguires um maior bem-estar.

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